Como eu Me Tornei
Sinopse: ‘Como eu me tornei…‘ conta a história de como e porque Jane e Alec foram capturados e transformados em vampiros para se tornarem membros dos Volturi. O enredo é ambientado no ano de 1607 e é narrado sob a perspectiva de Jane, que após ver sua família desmoronar toma um caminho sombrio.
01. Medo
“O que eles farão conosco?”
Sangue.
Deus nos ajude.
“Jane?”
“Sim?” sussurrei de volta.
“Você me diria se algo horrível fosse acontecer, certo?”
Senti um peso horrível cair em meu estômago. Éramos gêmeos e raramente éramos vistos separados, contávamos tudo um ao outro, nunca houveram segredos entre nós. Pelo menos até agora.
“Não, pare, ” eu disse a mim mesma, tentando me livrar do sentimento de culpa que tomou conta de mim.”Você apenas está tentando protegê-lo.”
Acenei com minha cabeça.
Estava empoeirado no chão sótão e cheirava a madeira úmida e apodrecida. O telhado estava bem acima de nós, e a pouca luz que tínhamos entrava pelas rachaduras e buracos nas telhas velhas de ardósia. Olhei por entre uma das rachaduras, esperando ver um pedaço da lua. Se fosse um céu limpo, eu teria visto a grande e pálida esfera flutuando lá, dando-me esperança. Mas, estava nublado, as grandes formas obscuras flutuando pelo céu como anjos negros, pesados e baixos na mais sinistra e ampla escuridão.
Aquela noite estava insuportavelmente quente e grudenta. Era o meio do verão e os céus não se abriam há quase dois meses. A praga havia devastado a pequena cidade, deixando para trás o constante cheiro de carne podre, sempre presente era o medo da morte, como uma sombra, te seguia para todos os lugares. Senti o suor escorrer por minha testa; tentei secar como pude, entretanto, de alguma forma conseguiu aterrisar em minha boca. Era quente e salgado, e tinha gosto do terror constante que corria dentro de mim.
“Crianças do demônio!”
“Descendentes de Satã!”
“Bruxos!”
“Assassinos!”
Era isso que eles nos chamavam. Dizendo tais coisas por entre dentes cerrados, olhando para nós com tanto desprezo e ódio que me sentia tanto intimidada quanto furiosa ao mesmo tempo. Não éramos tais coisas. Éramos livres de pecado, crianças nem com doze verões de idade, porém, eles nos temiam. Isso era o que eu não conseguia entender.
Por que? Não havíamos feito nada de errado.
02. Captura
“Alec”
“Sim?”
“Nada. ”
Estávamos sentados lá de mãos dadas, ouvindo os soldados devastarem a casa embaixo de nós. Anna, nossa irmã mais velha, de 15 anos, havia subido há uns 5 minutos atrás para nos dizer que os soldados estavam exigindo fazer uma busca pela casa. “Fiquem quietos”, ela cochichou para nós, “e pode ser que eles não encontrem vocês”.
Então ela desapareceu pela pequena e quadrada porta no chão, pela qual ela tinha vindo.
Anna era alta e esbelta, com cabelo longo tão escuro que era quase preto. Ele caia abaixo de sua cintura e estava geralmente preso em uma grossa trança que pendurava em suas costas. Ela era linda, com negros olhos profundos e compreensivos, que viam dentro da sua alma, e uma rica cor oliva. Ela era a única criatura em todo esse imperdoável mundo que se importava conosco.
Nossos pais haviam morrido há três anos com nosso irmão bebê, Domenico, na última grande praga.
Nossa irmã e nós havíamos escapado apenas com nossas vidas.
Então agora vivíamos com Anna, ela cuidava de nós, nos defendendo dos comentários horríveis, nunca desistindo de ter esperança.
De repente o chão em que estávamos sentados balançou e tremeu. Um som alto e abafado, como homens gritando, subiu pelas tábuas do piso.
Eles haviam nos encontrado.
Pânico começou a crescer em mim, me paralisando de medo e alarme.
Não, eles não podiam nos encontrar.
Eles não podem.
Não.
Olhei para Alec, seu rosto espelhando como ele se sentia, enjoado de medo.
Me senti tonta, a sala estava girando.
Ouvi um barulho alto de madeira se quebrando, o som de vozes triunfantes e, de repente, a porta se escancarou revelando a cabeça grande e feia de um soldado, seus olhos negros, opacos, como os de um besouro, vasculharam a sala sombria em busca de qualquer sinal de vida. Eu puxei Alec para trás de uma das caixas de coisas que estavam entulhadas na pequena sala, me encolhendo nas sombras, tentando nos camuflar na parede escura atrás de nós. Segurei meu fôlego rezando para que eles não nos vissem.
Virei minha cabeça em direção ao meu irmão. Entretanto, ao fazer isso, encostei no pequeno vaso de cerâmica com o qual Alec estava brincando momentos atrás. Ele rodopiou e sacudiu antes de cair. A fina cerâmica barata quebrou no instante em que tocou o chão, se desfazendo em mil pedaços.
O soldado que estava quase descendo novamente pelo buraco olhou para cima exatamente para o lugar onde estávamos sentados. Com um grito alto e vitorioso ele pulou do buraco e veio até nós. O resto aconteceu rápido demais para compreender. Ouvi um grito de desespero abaixo de nós – Anna – e o que pareceu mil fortes homens em uniformes vermelhos, correndo na nossa direção. Eles nos puxaram, brutalmente nos levantando e amarrando nossas mãos e pés. Lutando e chutando, eles nos carregaram de volta pelo buraco abaixo. Eu gritei e berrei tanto que eles providenciaram um pedaço de um sujo tecido verde e amarraram em volta da minha cabeça, me calando.
“ANNA!”
Eu tentei gritar através do pedaço de tecido sujo. Eu a vi, lágrimas escorrendo pelo seu rosto quase perfeito, implorando ao que parecia o general, para nos libertar. Quando ele balançou sua cabeça, Anna começou a gritar em angústia, exigindo e implorando para que nos soltassem.
Repentinamente, o general se voltou e deu um tapa forte em sua bochecha, deixando uma grande marca vermelha. Senti a raiva e a ira fervendo dentro de mim até que me encontrei desejando com todo a minha força poder ferir o horrível homem o máximo possível. Fixei meu olhar nele, desejando vividamente. De repente, ele deixou Alec cair e começou a tremer e se balançar para frente e para trás incontrolavelmente, como se estivesse em um transe, um olhar tanto de dor como de medo inscrito em seu rosto. O que estava acontecendo? Aos poucos ele começou a se acalmar. Então, respirando profundamente várias vezes, ele teve um colapso.
Encarei-o maravilhada. Eu fiz aquilo? Vi Alec olhando para mim com grande surpresa e espanto. Eu tinha feito aquilo. Mas ao invés de me sentir culpada e chocada por ter feito uma coisa tão terrível a um companheiro humano, senti como se estivesse voando. Uma grande onda de alívio tomou conta de mim, como se um grande peso tivesse sido tirado dos meus ombros.
Um trovão alto soou sobre nós e a chuva começou. A água caiu como pedras, imediatamente cobrindo tudo e formando bicas, vazando pelo teto.
De uma só vez, os soldados começaram a berrar, gritando sobre bruxaria e magia. Nenhum deles se aproximou de mim, mas ao invés disso, me ameaçaram com a ponta de uma faca, tentando me forçar para fora nessa noite de tempestade. Protestei, gritando e berrando por meu irmão e irmã. Houve um barulho alto e seco, o esmagar de vidro e a quente corrente de sangue escorrendo por minhas têmporas.
Desmaiei.
03. MEMÓRIAS
Dizem que esperar pela morte é pior do que morrer.
Concordo com quem quer que tenha dito isso porque é verdade.
Estava frio na cela e meu bumbum doía de ficar sentada nesses tijolos imundos por tanto tempo. Eu também estava com uma dor de cabeça insistente onde um daqueles soldados estúpidos tinha me batido com uma garrafa. Eu acordei nesse quarto com Alec debruçado sobre mim e chacoalhando meu ombro. Ele parecia como se esteve chorando. Eu perguntei o que tinha de errado e ele respondeu,
“Eu pensei que você estava morta”.
Isso foi há 4 horas e ele não falou comigo desde então.
Havia uma porta do lado oposto da sala, e a menos que você serrasse as barras de ferro da janela, esse era o único jeito de sair. Eu sabia com certeza de que ela estava trancada e obstruída no outro lado, e que as barras que haviam eram tão grossas quanto o comprimento do meu dedo. Um guarda apareceu assim que Alec me acordou para nos dar pães secos e nos dizer que eles voltariam para nos buscar ao amanhecer. Eu suspirei e estremeci, e embora a noite estivesse quente, o quarto tinha uma brisa gelada assoprando por ele. Esfreguei meus braços com toda minha força, tentando não deixar que minha mente vagasse para o dia que inevitavelmente estava diante de nós. Ao invés disso eu tentei pensar nos tempos felizes antes de mamãe e papãe morrerem. Talvez se eles estivessem vivos, eu estaria nesse momento dormindo na minha cama, apenas com as preocupações normais que qualquer menina de 11 anos deveria ter.
Levantei e fui na ponta dos pés dar uma olhada no mundo do lado de fora de nossa prisão.
Estava agora quase amanhecendo. Do que eu podia ver da manhã pela janela, o dia estava nublado e o céu tingido de rosa. Se cheirava mais fresco e o ar era muito mais frio do que estava quando eles chegaram na nossa casa. A tempestade tinha limpado o ar e eu podia ouvir os primeiros pássaros cantando nas primeiras luzes do dia.
Sem aviso houve uma respiração algum lugar sobre meu ombro. Pulei assustada, girando no lugar. Era Alec, parado atrás de mim. Olhei pra ele surpresa já que eu não havia pensado muito nele desde que ele me despertou do meu sono. Olhando pra ele nessa nova luz, ele parecia despenteado, seu cabelo curto e castanho escuro estava bagunçado e seu rosto manchado de lágrimas. Por alguma razão eu evitei olhar diretamente pra ele no começo, esperando que ele baixasse o olhar que estava fixado em meu rosto. Contudo, ele não abaixou, e depois de algum mtempo eu tive que olhar pra cima.
Seus profundos olhos castanhos normalmente calmos estavam cheios de raiva, sua pele pálida estava corada e quente.
“O que?” Perguntei confusa, sua raiva me assustou. Eu era a mais velha somente por algumas horas, mas sempre fui a líder, sempre a que estava no comando. Agora eu encarava esse garoto desconhecido, me sentindo mais inferior do que jamais havia sentido em minha vida antes.
“Você mentiu pra mim”.
As palavras saíram de sua boca quase como um rosnado, com tal força e ressentimento que eu estava chocada.
“E-e-eu” Eu tentei gaguejar mas minha língua não funcionava, as palavras que eu pretendia dizer se enrolaram em minha boca. .
“Eu achei que não haviam segredos. ”
“Alec eu…”
Ele me cortou.
“Você sabia todo o tempo, não sabia?”
Cada silaba me cortava como uma faca, me ferindo. Eu não podia entender porque ele estava tão nervoso. Fiquei ali aturdida sem poder falar ou me mover. Ele continuou.
“Você sabia o tempo todo que chegaria a isso, desde aquele dia no mercado, você sabia. ”
“Jane, nós vamos morrer”.
Eu pude ver lágrimas se formando novamente em seus olhos enquanto ele lembrava um dia no qual não pensei por anos;
De repente houve um grito virando a esquina. Alec e eu olhamos um ao outro e começamos a correr para a direção da fonte do barulho. Então vimos. Uma multidão está cercando um lugar em particular. O de venda de escravos.
Nós abrimos caminho na multidão de gente, querendo ver a ação. O comerciante, um grande homem barbudo com uma cicatriz correndo todo o lado esquerdo de seu rosto, está elevando-se sobre uma pequena menina africana, não muito mais nova do que nós mesmos. Ele tem um chicote em sua mão e está gritando com ela. Ninguém gosta do comerciante de escravos. Ele é um péssimo inimigo. Às vezes as crianças desaparecem e então são reportadas como vistas em um de seus barcos. Embora isso nunca possa ser provado. Ele é grande e feroz, e ninguém se atreveria a passar por seu caminho. Ele está gritando com a pobre menina e golpeando-a no rosto. Sinto Alec ao meu lado tremendo pela raiva, seus punhos cerrados com força.
De repente o comerciante pára no meio do golpe e deixa cair o chicote, caindo de joelhos. Seu rosto está completamente branco. A multidão está silenciosa, você poderia ter ouvido um alfinete cair.
O homem parece estar se sufocando; não, ele está tentando falar. Ele ergue uma mão trêmula embora tome todo o esforço do mundo e aponta. Por sobre a multidão, procurando. Em seguida a multidão se separa como partes do Mar Vermelho e é óbvio quem ele está apontando.
Alec.
Eu olho pra ele em choque. Não pode ser Alec fazendo aquilo!
Ele está ali mais pálido do que ele é normalmete, quase branco como a neve. Ele parece calmo, mas seus olhos aterrorizados contam uma história diferente.
O atrito de chaves na porta me trouxe abruptamente de volta à terra. De repente, percebi que eu estava segurando com força meu pingente de novo. As bordas eram afiadas e me cortaram.
Olhei da porta no lado oposto mais distante da cela para Alec e de volta. Seus olhos estavam exatamente como naquele dia muitos anos atrás.
Petrificados e aterrorizados de medo.
Como Eu Me Tornei… – Capítulo 04
04. Julgamento
A porta abriu para revelar um alto e musculoso homem, quase tão largo quanto a própria porta. Ele tinha oleoso cabelo preto que estava amarrado por um pedaço de uma fita emaranhada na altura de sua nuca. Seus olhos eram de uma cor cinza como lã e sua pela era de um branco sujo, como se ele não tivesse se lavado por meses. Ele se arrastou pela nossa cela como se não estivesse acostumado a andar. Em sua mãe direita ele carregava um chicote, não diferente do que o comerciante de escravos tinha carregado por todos aqueles anos atrás. Ele examinou o cômodo com grande repugnância antes de olhar diretamente para Alec e eu.
Ele emitiu um baixo barulho de rosnado desde a base de sua gargante e cuspiu;
“Vocês vem comigo” ele tinha um acento estrangeiro, francês talvez.
Nós ficamos lá parados, congelados pelo choque. Sua voz ecoou pelas paredes de pedra soando sinitra. Quando nós não nos movemos ele se arrastou até nós, nos agarrando, um em cada grande mão suja, e nos arrastou até a saída.
Ele cheirava horrivelmente, e as unhas em cada dedo parecido com uma salsicha estavam incrustadas com sujeira. Ele meio que nos carregou e meio que nos puxou para fora da porta, e descendo por um grande número de frios degraus de pedra. Seu aperto estava me sufocando, fazendo mais e mais difícil para respirar. Eu comecei a enforcar e buscar ar, e invés de afrouxar seu aperto, ele apertou ainda mais.
Fomos carregados corredores após corredores até eu achar que não podíamos ir mais longe. Repentinamente nós estávamos em área aberta, o sol quente batendo em meus pobres olhos e corpo, e então o sol se foi, e estávamos de novo dentro de paredes. O grande homem nos jogou no chão de outra cela onde imediatamente fomos algemados e empurrados para um canto.
Eu me deitei no chão arfando e lacrimejando. Minhas costas, braços, pernas e garganta doíam comos os infernos, e se passaram muitos minutos antes de eu ter força o suficiente para me levantar e sentar.
Examinei o pequeno cômodo, e para minha surpresa vi duas ou três outras pessoas sentadas em silêncio num canto também observando. Mas com uma diferença. Eles estavam me observando.
Todos nos sentamos lá em silêncio, Alec agarrando minha mão, e eu o meu pingente.
O cômodo era parecido com o que nós estávamos antes, embora era mais limpo e com um banco em um dos cantos. Eu olhei para meus companheiros de ocupação. Todos eles pareciam deformados e magros com olhos fundos. Tinha uma senhorita de cerca de 25 anos, e dois homens, um deles sendo muito, muito velho.
Eu não sei por quanto tempo ficamos lá sentados, mas um por um as outras pessoas foram escoltadas para fora do cômodo pelos guardas. Eles não voltaram.
Então era nossa vez. Foi o mesmo guarda estrangeiro que nos levou lá, que nos acompanhou para nossa próxima parada. Seu volume enorme nos levou por corredores que já havíamos passado e por tanto cantos e tantas passagens que eu perdi conta. Então finalmente chegamos em um grande par de portas de madeira. Fomos empurradas por elas para dentro de uma sala enorme.
Uma sala de julgamento. .
Eu realmente não lembro de nada daquela hora. Passou em um transe, como se eu estivesse olhando nas memórias de outras pessoas. Eu fiquei lá olhando para o juiz falando quando devia. E então acabou. A corte havia decidido. Nós fomos levados, mais uma vez, nosso destino agora decidido.
Mas não haviam mais lágrimas para eu chorar.
Fomos levados novamente a nossa cela originai. Eu mal percebi o quão rude o guarda bruto me segurou. Tudo estava borrado. Nada mais fazia nenhum sentido.
Eu vagamente senti Alec perto de mim. Mesmo através de minha visão distorcida pelas lágrimas eu podia ver que ele estava em um estado similar ao meu. Logo três ou mais guardas vieram por nós, seus corpos musculosos nos protegendo de qualquer tentativa de fuga. Mesmo que eu quisesse eu não tinha a fé para tentar escapar.
Eles nos levaram para uma quadra movimentada, o mercado. As pessoas estavam gritando e vaiando. Eu acho que eles poderiam tmbém ter estado atirando coisas em nós, mas eu não reparei ou importei. Fomos levados para um poste de madeira com fardos de madeira ao redor. Nos mandaram escalar no meio dele e ficar contra o poste, em todos os lados. Nós fizemos isso, e eu lembro de pensar e rezar para Deus, como eu tinha feito a menos de vinte e quatro horas atrás pedindo que minha morte fosse rápida. Eu senti meus pulsos e tornozelos serem amarrados para os de Alec atrás de mim e mais alguns fardos de madeira serem jogados na pilha que já era grande. Então um padre leu um curto sermão em como ele esperava que Deus nos perdoasse por nossos pecados.
“JANE!”
O grito histérico foi audível até mesmo pela multidão tumultuada. Meus olhos abriram rapidamente, olhando pela primeira vez para a cena em minha frente. Uma garota alta com longos cabelos escuros estava tentando nos alcançar. Empurrando seu caminho pela severa aglomeração.
“JANE” ela gritou de novo “ALEC!!!”
Era Anna.
Seu lindo rosto estava distorcido com raiva, dor e tristeza. Ela tinha círculos profundos por baixo de seus olhos abatidos, como se ela não tivesse sido capaz de dormir por semanas, e sua pele estava em uma cor pálida não saudável. Ela estava chorando com toda a sua força, seus braços procurando por mim, por nós.
Então eles acenderam o fogo, eu ouvi o som antes que a dor viesse. O grito histérico e cheio de remorso de Anna se destacou pela agora silenciosa platéia. Senti minhas roupas começarem a pegar fogo, gavinhas de fumaça e chamas subindo por minhas pernas. A sensação era horrendal. Como se eu tivesse sido mandada diretamente pelos portões do inferno. Eu não gritei. Qual seria o uso?
Eu tentei desligar tudo. A multidão assustadora, o choro de Ana, a dor, minhas memórias de minha curta vida. . Tudo. Fechei a minha boca com força, dando boas vindas a morte e a liberação da insuportável dor.
Como Eu Me Tornei… – Capítulo 05
05. Anjo
Eu perdia e retomava a consciência, sem focar em nada, a chama consumindo-me e dominando-me. Sempre que voltava à um de meus momentos conscientes, tentava encontrar a voz doce, ainda que terrivelmente histérica, de Ana, dentre o tumulto da multidão. Entretanto, eventualmente, os gritos se extinguiram, ficando cada vez mais e mais fracos, mais distantes, e senti-me indo à deriva, flutuando em direção ao desconhecido.
A voz veio de cima de meu ombro direito, e com aquelas poucas sílabas eu soube duas coisas; Uma, era a voz da sombria figura – ou do Anjo, se é que era isso – que eu podia ouvir e dois, aquele Anjo era um homem. Ele falava calmamente, tão suave e sedutor, até musical.
“J-Jane” eu gaguejei em resposta. Minha voz mal era um quebrado sussurro, dificilmente audível para meus ouvidos, mas, meu anjo pareceu ouvir pois acenou com a cabeça. Ele pausou, acariciando meu ombro com seus suaves, longos e brancos dedos como mármore. Eles eram frios como gelo, como se os tivesse colocado debaixo de água congelante. Eles se sentiam prazeirosos, em contraste com o calor escaldante ao meu redor, e tentei me virar para ver o rosto do meu Anjo. Sua mão, entretanto, segurou meu ombro, tornando isso impossível. Seu aperto era forte como ferro, mil vezes mais forte que o do guarda, e eu podia dizer que ele seria capaz de esmagar-me como eu seria capaz de esmagar uma formiga, sem esforços.
“Jane” Ele meditou, afagando minha pele.
Meus pés roçavam o chão, mal o tocando, e em segundos eu estava nas bordas da cidade. A primeira coisa que me atingiu foi o cheiro. Milhões de cheiros encontraram minhas narinas em menos de um segundo; Lixo humano, animais, cadáveres podres e sangue. Sangue humano.
Eu corri dentro da cidade, olhando pelas ruas desertas, tentando encontrar de onde a melhor refeição viria. Nem cem quadras depois estava uma pequena casa de dois andares. Eu caminhei em sua direção devagar – para mim de qualquer forma – e parei do lado de fora da porta da frente. Havia a janela de um quarto bem acima da entrada e eu podia ouvir a respiração estável de um humano. Eu podia ouvir e cheirar seu sangue, pulsando por seu corpo. Quente, espesso e sedutor sangue.
Tentativamente eu abri a janela. Já estava levemente entreaberta por causa do clima quente, e abriu sem nenhum ruído. Eu pulei no aposento e rapidamente andei até a cama. Era um homem de cerca de trinta anos, seu pijama desgastado. Movimentei minha mão, pairando-a por sua cabeça, sua mandíbula, sua garganta. Eu podia ver o sangue correndo por baixo de sua pele, quente e fluindo. Eu toquei seu pescoço, minha pequena e branca mão afagando a linha de sua mandíbula.
Seu sangue foi a coisa mais maravilhosa que eu já havia provado. Fluiu leve, quente e doce por minha língua. Eu bebi pesadamente, assistindo o homem ficar fraco e então flácido, passando para branco por falta de sangue. Em menos de um minuto eu o sequei, levantei observando minha vitima com um olhar satisfeito. Ele tinha cabelos curtos e bagunçados e em seu dedo esquerdo um anel.
Tinha um vento do norte soprando, trazendo o cheiro de centenas de humanos. Eu me senti correndo de novo, voando pela cidade.
Olhei para cima pra ver Aro se agachando em minha frente. Sua linda embora ainda terrível face estava a poucos centímetros da minha. Ele estava me observando minuciosamente, tentando ver se ele havia tomado a decisão certa, seus vermelhos olhos eram tão velhos, e sábios, me senti ainda pior diante de sua presença. Ele tocou levemente meu braço, mas eu recuei. Acho que ele captou a mensagem porque se levantou e andou graciosamente em direção aos seus companheiros.
Nós estávamos em uma longa sala de teto alto, com intrincados desenhos esculpidos em madeira e pilares de pedra que sustentavam o telhado. Na sala estávamos eu, Aro, Alec, Demetri – meu-guarda – e sete outros os quais não sabia os nomes. Demetri foi quem me encontrou, Aro disse que ele era um rastreador, ele tinha a habilidade de encontrar qualquer pessoa em qualquer lugar. Eu não o admirava por isso e tomei uma súbita e irracional aversão ao grande e musculosohomem de cabelos escuros. Ele era amigável o bastante eu suponho. Ele me disse que tinha vindo de Volterra. Isso me confortou um pouco, mas não muito.
As outras pessoas na sala eram variadas. Seis homens e uma mulher. Três dos homens estavam de pé em torno de Aro e todos eles pareciam estar tendo em uma discussão bastante séria. Desses três, aquele que mais me chamou a atenção foi um pálido homem com cabelo loiro bem curto. Não que todos nós não fossemos pálidos, Aro em especial, mas este homem parecia bem mais jovem do que Aro, eu supunha, não apenas em suas características, ele não poderia ter mais de vinte e cinco anos, mas também na sua pele. Era uma pele vibrante, branca, pura, não como a de Aro, quase transparente como papel. Ele era alto e esbelto, com uma curiosa expressão que retratava uma sede por conhecimento. Mas não foi sua aparência estranha que me surpreendeu, mas seus olhos.
O pensamento parou de repente e fechei meus olhos, movendo minhaa cabeça de volta à sua posição abaixada. Eu fiquei assim ao que me parecia ser eterno, ouvindo Aro, o loiro homem e dois outros falando em uma língua diferente do meu próprio italiano.
“Ora Marcus, você está certo. ” Aro deu um enjonado sorriso doce e esfregou suas mãos. “Então”, ele virou-se para me encarar. “Você, no seu tempo de contemplação, considerou minha oferta?”.
Aquele foi o começo. O começo de minha vida. Daquele momento em diante eu finalmente aceitei quem eu era, envolvida em uma família.
Fui ensinada como lutar, como caçar e como usar meu odioso poder a sua extensão completa. Alec e eu nunca mais tivemos uma ligação de verdade. Ele era distante, quieto, como em um mundo apenas seu.
Eu rapidamente comecei a esquecer sobre a vida antes dessa. As imagens, os cheiros, a dor, tudo exceto Anna. Ela ficou comigo para sempre, assombrando meus conscientes pesadelos, me lembrando de tudo que eu havia perdido. A tristeza de sua perda sempre ficou pairando sobre mim, me fazendo amarga e cheia de ódia.
Eu tinha perdido tudo e mesmo ganhando tanto isso não compensava as perdas. Minha única compensação era minha habilidade.
Eu tinha controle completo sobre qualquer um, eles não ousariam ir contra mim a menos que quisessem sentir a ira de minha revanche. E assim eu tenho vivido por mais de quatrocentos anos.
De repente, por alguma razão que eu não entendi muito bem, abri meus olhos. A espessa fumaça os fez queimar e arder, sufocando-me. Não conseguia ver nada, por todo o lugar havia apenas uma grande massa de acinzentada névoa branca. Não, espere, havia algo lá. Uma figura negra estava caminhando lento, e ainda graciosamente em minha direção, parecendo derreter pela impenetrável névoa. Seu contorno estava embaçado e eu apenas era capaz de dizer que era uma forma humana. Seria este nebuloso e terrível lugar o Paraíso ou o Inferno? E se fosse o Paraíso, essa figura seria um anjo ou Deus? Tentei gritar, perguntar quem era, mas logo que abri minha boca, senti a sólida e nebulosa fumaça adentrá-la, assolando meus pulmões. Tossi incontrolavelmente, tudo estava girando.
Olhei para cima para procurar pela figura novamente, mas, não estava lá. Eu estava confusa, de repente sentindo-me mais sozinha do que jamais me senti. Olhei ao redor, procurando-o, caçando por ela.
“Criança”
“Qual o seu nome, criança?” Ele indagou.
“Fique parada então, minha Jane querida, ” veio a voz suave e sedosa do Anjo. Eu podia sentir seu hálito em meu rosto, doce e fresco. Cheirava delicioso, como maçãs de outono ou rosas.
Pude sentir o Anjo curvando-se sobre mim, seu rosto pairando em cima de meu ombro. Ele parecia me cheirar, inalando meu aroma. Perguntei-me o que ele estava fazendo e estava prestes a perguntá-lo, quando senti seus gelados lábios gentilmente tocarem minha clavícula, sua rígida língua ternamente lambeu minha pele. De repente, ele abriu sua boca e enterrou seus dentes em minha carne.
A princípio eu não podia sentir nada, curiosa e levemente enraivecida por ele me tocar daquele jeito. Então houve a dormência. Se sentia estranho, como quando eu havia acidentalmente sentado em minha perna e ela ficou dormente, um formigamento estranho tomando lugar de qualquer sensação normal.
A dormência espalhou-se por meu braço até a ponta de meus dedos, fazendo-os também formigar. Procurei pelo Anjo ao meu redor, mas ele não estava lá. Comecei a entrar em pânico, ansiando por sua misteriosa e tranquilizante presença.
Foi aí que a queimação começou.
Como Eu Me Tornei… – Capítulo 06
06. Queimando
Se espalhou lentamente pelos meus ombros e para meus braços e dedos, quente escaldante como fogo depois de gelo. Me desorientou, pois eu repentinamente pensei se era o inferno afinal. As chamas avançaram através de mim, eliminando todo toque do meu estranho de mãos frias, e lambendo minha pele.
Tentei lutar contra o queimar, abrir meus olhos e gritar com o Anjo por fazer isso comigo, mas tudo estava negro. A fumaça nebulosa havia desaparecido, substituída pela escuridão tão profunda que era até impossível. Suspirei por ar, mas meus pulmões estavam quentes demais. Tomad por uma dor a qual nunca tinha pensado antes possível. Eu estava com medo – não, aterrorizada; completamente sozinha sem ninguém para diminuir o terror.
A dor começou a centralizar em meu corpo, se acumulando no meu coração. Lutei, tentando me livrar do calor e das chamas que eram muitas vezes piores que a fogueira de antes. Mas ao invés de diminuir, o inferno ficou pior, rastejando por minhas veias e se concentrando no meu coração até que pensei que ele fosse explodir. Eu podia sentir que estava perdendo e retomando a consciência, meu cérebro parecia morrer e depois voltar de repente, com uma nova explosão de fogo.
Quente e mais quente se tornou. Certamente não poderia ficar mais quente. Mas eu estava errada. Naquele momento uma grande onda de tontura me encobriu, lançando-me na inconsciência.
***
Não sei quanto tempo depois a realidade voltou à mim. Não havia tempo nesse estupor sem fim. Entretanto, eu sabia que a dor estava se espalhando. Não diminuindo de maneira alguma, mas forçosamente se espalhando, do meu coração gradualmente se espalhando para outras partes do meu corpo. Ela aumentava e se enfurecia, queimando meus braços e pernas, fervendo minha alma. Eu não conseguia respirar; cada parte de mim estava tentando rejeitar a dor.
“Me mate agora!” Ouvi a mim mesma suplicar. Até mesmo o fogo da estaca era melhor do que isso.
Tentei pensar em todos aqueles que tinham me amado e que eu tinha amado, mamãe, papai, Anna, Domenico e Alec.
Alec.
Onde ele estava? Ele viu o Anjo? Ele estava bem? Oh, Senhor, ele não poderia estar. . . Eu não podia me fazer pensar sobre isso. A ideia me fez tremer.
De repente, uma nova onda de dor me envolveu, me fazendo engasgar alto. Por que eu não estava morrendo? Eu poderia sentir nas pontas de meus dedos, nos meus dedos dos pés. Eu queria chorar, mas nenhuma lágrima veio. Ao inves disso, eu gritei. Um grito tão alto e cortante que eu surpreendi até a mim mesma. Mas não adiantou nada, pois apenas fiquei sem o precioso ar mais depressa, e não fez nada pela pulsação de dor dentro de mim. Eu estava sufocando em um poço sem fim de escuridão.
Acho que eu devo ter desmaiado novamente, pois a próxima coisa que eu percebi é que a dor começou a diminuir nas extremidades do meu corpo. Ela me puxava, levando o sangue de volta para o meu centro, onde se enfurecia mais uma vez, como uma fornalha. A mudança foi tão gradual que eu não percebi de imediato, mas logo senti deixando meus dedos. O fogo parecia focar novamente em meu coração, contudo, se possível, dessa vez ele estava mais quente e mais feroz que antes. Me sentia como se tivesse sido lançada mesmo em uma fornalha ou tivesse segurado no lado errado de um atiçador de lareira.
Lenta, mas certamente, a dor ficou mais quente, até que, de repente, quando eu pensei que não conseguiria mais suportar, ela desapareceu, deixando uma batida seca, como se alguém tivesse dado um soco onde estava meu coração.
Permaneci lá, na escuridão, lentamente tomando o repentino alívio. Cuidadosamente, movi meus dedos, depois os dedos dos meus pés, depois. . .
“Ela está se mexendo. ”
A voz de Alec.
Congelei. Todos os meus sentidos – exceto meus olhos, os quais eu mantive fortemente fechados – estavam no máximo. Ouvia intensamente os sons ao meu redor, sua respiração e o roçar de suas roupas.
Havia dois homens na mesma sala, e eu e uma mulher. Apenas de ouvir eu era capaz de dizer que a mulher estava de pé ao lado de uma porta que estava aberta cerca de meia polegada. O vento soprou através dela, fazendo seu cabelo se mover delicadamente e lançar seu perfume floral em minha direção. Eu também podia dizer que havia um homem sentado não longe de mim – Alec – e outro se curvando sobre mim e me examinando com cuidado.
“Sim, eu percebi. ”
A voz era do segundo homem, o que estava inclinado sobre mim. Sua voz era suave e parecia mel. E soava familiar, como se fosse de um sonho.
Foi então que percebi que o fogo não havia parado completamente. Ele ainda estava lá, mas agora estava no fundo de minha garganta e nem de longe era tão quente. Era, contudo, ainda quente o suficiente para ser bastante desconfortável. Automaticamente senti meu braço se levantar para tocar minha garganta.
“Ela deve estar com sede. ”
A voz de Alec novamente. Não, espere. Ela parecia suave demais, linda demais.
“Jane?” ele disse, sua voz iluminada com curiosidade.
Abri meus olhos.
Como Eu Me Tornei… – Capítulo 07
07. Aro
A primeira coisa que me atingiu foi a luz. Milhares de cores diferentes que ressaltavam de tudo, rosas, verdes, amarelos, azuis, e uma outra que não conseguia identificar. Olhei em volta e descobri que estava em uma pequena câmara, em uma cama levemente acolchoada e ainda assim dura. Me sentei, confusa.
Isso era o céu?
Ou era o inferno?
Ou eu tinha de alguma forma milagrosamente sobrevivido as chamas de onde eu tinha acabado de sair?
Olhei a minha volta e não estava surpresa ao ver um alto homem de cabelos negros parado perto da cama. Ele estava coberto com uma capa de profundo cetim preto que caia até o chão.
“Olá minha criança. ” Ele falou em sua voz macia e sedosa, imediatamente o reconheci como sendo meu Anjo.
Ele ergueu uma longa e branca mão, que era tão pálida como giz, que era quase translúcida, e gentilmente tocou minha bochecha. Ele a deixou ali por não mais de um segundo antes de abaixá-la e dizer;
“Ora, sua ultima suposição é verdadeira. ”
Franzi o rosto. O quê?
“Oh, minha querida, tão rude de minha parte, eu não me apresentei. ”
Ele pausou como se estivesse contemplando o clima, então em um único movimento ele inclinou-se, e fez um gesto floreado com sua mão.
“Eu sou Aro. ” ele disse, me olhando por baixo de espessos cílios negros. Ele se levantou e inclinou sua cabeça, me observando. Eu engasguei, pois seus olhos eram de um vermelho profundo, de alguma forma escurecidos por uma película cor leitosa que os cobriam.
Aro ignorou meu engasgo e continuou.
“Eu sou um de três, eu e meus irmãos, Caius e Marcus. Nós somos os lideres dessa unidade, e peço a você minha querida, pra se juntar a nossa guarda”.
Eu o encarei, atordoada. Do que nessa terra ele estava falando?
De repente houve um alto estrondo, como um trovão do lado oposto de onde fosse que estivéssemos. O ruído vibrou pelo quarto me fazendo chora em espanto.
“Oh, pelo amor de deus”, Aro disse olhando para a porta. “Ele tem que ser cuidado.”
A ultima palavra foi quase um rosnado e me chocou depois da suave e doce voz a que eu estava acostumada. Aro se levantou e deslizou pra fora da sala tão suavemente que era como se estivesse flutuando.
Meus olhos o seguiram pra fora da sala, em transe, quando algo pegou a borda de minha visão. Olhei novamente.
“Alec!”, eu exclamei.
De repente eu estava parada frente à ele, a poucos centímetros de distância. No mesmo momento em que aparentemente eu havia saltado da cama, Alec deu um salto pra trás de cerca de 10 metros, sua posição em guarda. Olhamos um ao outro, ambos impressionados com nossas reações, olhei para seus olhos e ele para os meus. Engasguei novamente.
“Seus olhos!”
Ele franziu a sobrancelha,
“Seus olhos, eles… eles estão cor de sangue!”
E realmente estavam, meu irmão, tão calmo e digno de confiança, tinha os olhos de um demônio.
“E… e sua pele” eu observei, minha voz caindo pra não mais do que um sussurro, “está branca como a neve. ”
Ele era lindo.
“Mas Jane, ” ele respondeu, mostrando uma expressão mista de dor e outro sentimento que não pude dizer. “Você está o mesmo. ”
“Não, NÃO!” Eu me afastei dele, pânico crescendo dentro de mim, a queimação em minha garganta se tornando mais e mais nítido a cada segundo. Esbarrei em uma pequena mesa e automaticamente a agarrei com minhas pequenas mãos, a madeira se esfarelando entre meus dedos como se fosse feita de cera mole, e não de duro carvalho.
Virei-me subitamente num surto de raiva que passava por mim para ver Alec parado no mesmo lugar que estava antes.
“O que nós somos?” Exigi entre a mandíbula apertada. Minha voz era um rosnado, cortando por minha garganta como um raio.
Alec me encarou pelo que pareceu uma eternidade, seus profundos olhos cor borgonha me penetrando.
“Vampiros. ”
Tão logo as palavras saíram de sua boca eu já me havia ido, correndo pela porta e descendo por corredores e salões ornamentados, tudo passando por mim em um borrão. Parei quando atingi um grande pátio. Estava escuro lá fora, mas visível, a lua em fase inicial de um de seus ciclos brilhava rodeada por milhões de estrelas. Por quanto tempo eu estive assim? Busquei em minha mente pela noite em que fomos raptados. Lembrei-me de que era para ser lua cheia se não estivesse tão nublado. Olhei novamente para o céu. Essa lua estava em sua quinta noite. Cinco dias. Cinco dias que eu estive entre aquelas chamas.
Fiquei parada no pátio de pedras deixando o frio ar deslizar por meu rosto. Eu não estava com frio, eu não sentia calor.
Olhei para frente e vi uma grande fonte no centro do lugar, duas trabalhadas figuras de pedra de um homem e uma mulher em pé no meio dela, as palmas de suas mãos e bocas lançavam jatos de espumante água fresca. Olhei para ela em transe na forma como a luz da lua refletia na água corrente. Ela cintilava e brilhava, a água fazendo um barulho suave, como a sua própria música. Nunca antes tinha visto tamanha beleza.
De repente, uma brisa fresca assoprou, trazendo com ela o perfume mais maravilhoso que eu já tinha sentido.
Senti meu corpo caindo de 4 no chão, minhas pernas traseiras se dobrando. Então, eu estava correndo. Não, voando seria uma palavra melhor, deslizando para fora do castelo e por sobre grandes portões que fechavam a parede em volta dele. Era sem esforço, tão fácil quanto levantar minha mão. E foi de se libertar, a paisagem passava voando por mim. Concentrei-me no conjunto de luzes, o lugar onde eu estava direcionada. Tudo o que eu conseguia pensar era a constante queimação em minha garganta, e a necessidade de satisfazê-la.
Como Eu Me Tornei… – Capítulo 08
08. Sangue
Eu inspirei o aroma, mais delicioso que qualquer coisa que eu já havia cheirado antes. E tão perto.
Eu senti o veneno fluindo em minha boca enquanto olhava pela janela com bordas de madeira. Me perguntei se eu poderia pular e repentinamente eu estava no parapeito, olhando para um pequeno quarto branco, seus únixos ocupantes sendo uma penteadeira, um baú, uma cama e um corpo.
Sem aviso ele falou, ainda meio dormindo.
“Maria?”
Eu dedilhei seu pescoço.
“Não. ” Eu respondi.
Seus olhos abriram, repentinamente cheios de medo e alarme.
“Quem-quem é você? Ele demandou.
“Isso realmente importa?” Eu respondi me inclinando para seu pescoço.
“S-s-saia de perto!” ele gritou debilmente.
Eu deslizei meus lábios por sua garganta, sentindo seu cheiro.
“Há! Como se você pudesse me impedir. ”
E com isso eu afundei meus dentes em sua carne.
“Mmmmm. ” Eu meditei. “Casado?”
Me virei e voei pela janela, pulando sem hesitar dessa vez e aterrissando silenciosamente em meus pés. Eu fiquei parada por um momento e novamente cheirei o ar.
Repentinamente eu parei. Tinha um humano próximo. Eu podia sentir. A rua que em que eu me encontrava estava mais escura que as outras, oculta pela parte de trás de muitas casas. Eu examinei a cena, buscando o coração batendo. Devagar caminhei até a fonte do cheiro, por um estreito beco. Eu virei a esquina para ver outro homem. Esse não era muito mais velho que eu mesma. Ele virou abruptamente assim que eu entrei em um raio de luar. Eu estava ciente de seu medo.
“Qual o problema?” eu perguntei em uma doce voz angelical.
“Fique longe de – “ ele nunca terminou sua frase. Eu ataquei.
Mordi em seu pescoço mais rápido essa vez, ansiosa para alcançar o sangue. Era morno e eu senti ele pingar por meus lábios até meu queixo em minha pressa para beber mais e mais. Em tempo algum, o jovem garoto era um cadáver branco, como um fantasma. Atirei seu corpo na terra suja em uma esquina ansiosa por mais, e mais uma vez comecei minha caça.
*****
Eu provei muitos sangues no tempo que já cheguei no final oposto da cidade. Minhas finas roupas estavam manchadas de sangue e a coisa vermelha escorria por meu queixo. A ardência em minha garganta estava quase satisfeita. Eu só estava pensando o que eu deveria fazer agora Eu congelei. Vindo de uma casa próxima veio um aroma como nada que eu jamais havia sentido antes. Era poderoso, um aroma tão doce. Era como uma droga, me deixando tonta, louca por ele. Eu não pausei, imediatamente voei para a janela pela qual o pesado perfume saia. Apressadamente abri a janela, nem me preocupando em ser silenciosa, desesperada para provar o sangue dessa pessoa em minha língua, em sentir o liquido quente percorrer minha garganta.
O cômodo era vagamente familiar, como se eu o tivesse visto em um sonho. Eu ri uma risada aguda com esse pensamento, por perceber agora que eu não podia mais dormir, e continuei no quarto. A cama no canto estava ocupada por uma mulher dessa vez, de novo ela parecia vagamente familiar, como se fosse de um sonho, seu longo cabelo castanho escuro espalhado no fino travesseiro como uma aureola, seu rosto angelical quase tão lindo quanto o de Alec. Eu hesitei agora, a assistindo dormir, seu peito movendo para cima e para baixo. Ela se agitou e eu dei um passo para trás segurando minha respiração, esperando que ela não acordasse. No entando ela apenas se virou, murmurando algo indistinguível em seu sono. Me aproximei novamente, esquecendo de minhas preocupações e toquei seu rosto, como eu tinha feito com aquele primeiro homem. Seus olhos abriram em um relance e ela me olhou.
“Jane?” ela perguntou em uma voz surpresa, mas eu já tinha atacado, afundando meus dentes em sua carne antes que ela pudesse abrir sua boca novamente…
Como Eu Me Tornei… – Capítulo 09
09. Morrer
Senti o sangue escorrendo dentro de minha boca, melhor que qualquer coisa que havia provado. Era grosso e doce e cheirava como o mais divino buquê de maçãs, frutas cristalizadas e flores do campo. Bebi longa e profundamente, saboreando o gosto. De repente ela gritou novamente.
“Jane!” ela gritou, ofegante.
Eu me afastei, irritada por minha comida ter gritado comigo. Ela, contudo, estava olhando para mim através olhos manchados de lágrimas, sua pele branca pálida e sem sangue. Eu podia ouvir seu coração bater, tão convidativo, agitado e alto.
“Sou eu!” ela balbuciou, sem ar e fraca pela falta de sangue. A olhei fixamente, tentando lembrar de memórias sobre ela.
“Você não sabe quem sou eu?”
Balancei minha cabeça, curiosa.
“Eu, eu sou Ana. Sua irmã. ” Lágrimas enormes deslizando por seu lindo rosto, estragando seus profundos olhos castanhos.
Então, as memórias vieram me inundando, todas de uma vez, como se fossem de mil anos atrás.
Anna. Minha irmã.
Olhei para ela novamente, uma onda de horror me percorrendo. O que foi que eu fiz? Olhei em choque sua branca e quase sem vida figura, sangue emanando da enorme ferida em seu pescoço. Milhares de memórias adentraram-me em um segundo. Quando ela havia nos defendido, seus suaves abraços, suas confortantes palavras. Houve um tempo em que ela foi a única razão pela qual vivi. E eu a havia destruído, sua belíssima vida estava apenas havia começado e eu, sua irmã morta-viva estava a tirou dela.
O que foi que eu fiz?
“Você se lembra de mim?” ela sussurrou. Acenei a cabeça, tentando trazer as lágrimas que não viriam.
“Anna, ” eu disse, minha voz falhou. “Eu sinto tanto. “
Suavemente afaguei seu pescoço, mas, dessa vez, não de uma forma que me fizesse ansiar por seu sangue. A queimação em minha garganta se foi, substituída por outra dor diferente de qualquer coisa que eu já tivesse sentido antes. Rasgou-me, partindo meu coração, arrancando-o sem bater de meu peito de pedra. Era pior que o fogo da estaca, mais doloroso que a inesquecível dor da transformação.
“Senti sua falta. ” Ela refletiu. Sua voz era tão quieta que até eu estava tendo problemas para ouví-la. Ela engoliu um sopro de ar, arfando com a dor. “Pensei que tivesse te perdido. A vocês dois. “
Pude ouvir seu batimento cardíaco diminuindo, seus rapidos batimentos iniciais ficando cada vez mais fracos e distantes. Ela havia perdido muito sangue.
Ela pausou, inspirando o ar quente de verão.
“Suas mãos estão frias” ela disse, inesperadamente. Sua voz estava mais alta agora, casual, como se estivesse passando as horas do dia. “E seus olhos, estão tão vermelhos quanto o sangue que te encharca. ” Olhei para baixo novamente, para a ferida aberta em seu pescoço.
“Eu sinto tanto. ” Eu disse, apenas alto o suficiente para ela ouvir.
“Por que?”
“Por tirar sua vida, minha irmã. “
Para minha surpresa ela riu, uma leve e falhada risada, e eu podia ver que agora era um esforço para ela apenas continuar respirando.
“Isso não é engraçado!” Explodi em uma súbita onda de raiva contra ela que me inundou sem aviso.
“Mas, Jane, ” ela respondeu ainda mostrando seu doloroso sorriso. “Você não vê que eu não poderia viver sem vocês?” Haviam lágrimas caindo de seus olhos novamente. Eu as sequei. “Eu teria morrido mais cedo ou mais tarde de coração partido, toda a alegria de minha vida havia me deixado.”
Balancei a cabeça.
“Mas, você teria se recuperado. ” Insisti. “Você poderia ter tido uma vida. “
“Não. ” Veio sua resposta. Agora, seu coração mal era audível. “Vocês dois são a única razão pela qual eu vivi. “
Abri minha boca para protestar, mas algo me impediu. O quarto estava silencioso. Sem respiração, sem ruído de lençóis, sem batimentos do coração.
Como Eu Me Tornei… – Capítulo 10
10. Correndo
Bem longe
Esse navio me levou para bem longe
Pra bem longe das memórias
Das pessoas que se importam se eu vivo ou morro
Starlight-Muse
Continuei correndo. Os meus pés não me deixariam parar. Eles zumbiram através da terra me levando para mais e mais longe da minha cidade natal, e de Anna. A corrida e a contanto constante dos meus pés pareciam me acalmar, de algum modo aliviar de qualquer maneira a culpa e tristeza que rasgavam meu coração. Eu não sabia para onde eu estava correndo, ou me importava.
Terra e cidades passaram por mim, tão insignificante e irrelevantes quanto os seus ocupantes. A brilhante lua se suspendia no céu aveludado. Ela não era mais um símbolo de esperança, mas de morte e destruição, me torturando desde dentro para fora. Corri por colônias, algumas pequenas cidades que vagamente reconheci de algum lugar que eu não sabia, uma vida que não foi minha. Não parei para olhar para trás, apenas deixei os meus pequenos, nus, e delicados pés me levarem para longe, muito longe.
Não foi muito tempo; talvez nem três minutos, até que eu notasse uma modificação no ar. O vento estava mais áspero, chicoteando em minha pele como agulhas. Mas isso não me incomodou; eu nunca sentiria nada novamente. O que realmente chamou a minha atenção contudo, foi o cheiro no ar. Sal, fresco e forte. Acelerei, repentinamente ansiosa para chegar ao meu destino, uma idéia brincando e se desenvolvendo em minha mente. Poderia ser isso; eu seria capaz de me libertar desta vida suja de culpa e dor que eu havia começado. Cheguei na costa em questão de segundos, a grande expansão de água, batendo e virando, revelando um lado diferente da noite clara e quente que eu tinha conhecido.
Escorreguei perto da ponta, inconscientemente sentindo perigo. Balancei na borda antes de recuperar o meu equilíbrio, precariamente recuando do penhasco. Eu nunca tinha vindo ao mar, pelo menos não que me lembre. Do que eu podia lembrar de minha vida humana, eu nunca realmente tinha sido de Volterra. Olhei para o mar, capturada por sua beleza selvagem. À primeira vista, as ondas de diamante pareciam ser calmas, as suas superfícies lisas brilhando na pura, e ainda sim terrível luz da lua. Mas eu sabia melhor, a minha inumana vista viu a corrente, a aspereza das ondas em que ninguém com sua mente sã se arriscaria. Embora eu não sentisse nenhum frio, um tremor correu por minhas costas, a brisa fresca brincando com meus cachos, atirando-os através de meu rosto. Tamanha paz não podia ser para mim. Pensei mais uma vez na cidade e a vida terrível que eu tinha deixado para trás e pulei, me jogando para o escuro esquecimento.
*****
Eu estava caindo, os meus membros se debatendo em todas as direções, desesperadamente procurando por algo para me segurar. Mas não existia nada além do ar salgado, assoviando em meus ouvidos, quase me ensurdecendo. Então bati em algo duro, um solavanco súbito de dor física passando por mim, me sacudindo. Gritei, a minha voz alta e cortante, enquanto meu corpo e rosto se chocaram contra as rochas, suas pontas afiadas se enfiando em minha pele dura como pedra, parecendo me rasgar quase tão forçadamente quanto meu pesar. Se eu fosse humana, eu teria sido morta instantaneamente, mas eu não fui, sobrevivi, viva o bastante para aturar a dor intensa que pulsava pelo meu pequeno corpo.
Então veio a água, um choque de gelo e um pequeno alívio das rochas. Respirei, os meus braços e pernas automaticamente procurando por ar acima de mim. Eu estava afundando, a luz brilhante da lua se formando rapidamente em uma sombra acima de mim, cambaleante e apagada embaixo da água. Tentei gritar, a minha boca abrindo, água entrando. Tentei conter o pouco ar que tinha, forçando os meus olhos a abrir. Repentinamente parei. Deixando meus membros ficarem dormentes. Os meus pulmões não pararam, não estavam buscando por ar. Eu estava segurando minha respiração. Flutuei alí embaixo da superfície da água, o agitado do mar me arrastando para longe das rochas. Nesse momento foi quando percebi.
Eu não precisava ter mantido a minha respiração antes. Ficar sem cheiros é demasiado irritante.
Eu não precisava respirar.
O fracasso bateu em mim como pedra sobre pedra, a realidade disso quase pior do que meu pesar por Anna.
Eu tinha que morrer.
Eu tinha.
Lentamente afundei mais e mais no escuro vazio, rapidamente pensando que nunca terminaria. Eu estava errada, meu corpo ferido repentinamente batendo no chão oceânico.
Como Eu Me Tornei… – Capítulo 11
11. Perdões E Boas-Vindas
Eu abracei os meus joelhos contra o meu peito evitando o olhar insistente das pessoas em minha volta. Eu nem podia olhar para Alec; não queria olhar a dor e a tristeza tão claras em seu rosto angelical.
“Jane”.
Eu estava tão acostumada ao vermelho dos meus companheiros, que seus olhos foram um choque. Eles eram dourados.
Naquele momento, ele olhou para cima, olhando para mim com um misto de curiosidade e de tristeza, como se ele estivesse com pena de mim. Olhei para ele, uma onda de raiva correndo através de meu corpo. Eu não precisava de sua pena. Eu não precisava da pena de ninguém. Eu só precisava de Ann. . . . .
Oh, como eu desejei estar de volta ao fundo do oceano. Para sentir a água enquanto lavava e rodopiava em torno do meu corpo, ir à deriva, sem nenhuma preocupação no profundo mar azul.
Fui despertado dos meus conscientes sonhos ao som de altas vozes.
“Ela é tão jovem, Aro!” O homem do lado esquerdo de Aro estava gritando, sua voz foi abaixada como quisesse que fosse ouvida. Uma invisível brisa parecia estar brincando com seus cabelos na altura de seus ombros, tão branco que era tão pálido quanto sua pele translúcida, caindo em volta de seu velho rosto.
“Mas Caius, pense sobre o que Eleazar viu, nós seríamos imbatíveis!” Nesse ponto o homem de olhos dourados, um de estatura mediana e cabelos escuros – que eu viria a descobrir mais tarde sendo Eleazar – e o ultimo, um homem alto de longos cabelos, olharam pra ele. O homem de olhos dourados parecia incrédulo, e aquele de cabelos negros, me esforcei para decifrá-lo tentando desvendar sua expressão. Parecia em branco? Vago de emoção.
“Aro, ela nos expôs, ela. . . ” Caius olhou para responder, seus olhos rubros sobre mim, e de volta para seu irmão. Aro ergueu uma branca e fina mão para detê-lo.
“Detalhes, meros detalhes”.
“Você, você usaria uma criança? Para isso?” O de olhos dourados falou, sua vos era macia e estrangeira, mas eu não pude distinguir o sotaque. Olhei pra ele, irritada. Eu não era uma criança!
De repente ele estava no chão, gritando, chorando de dor e se contorcendo. E então uma imagem me atingiu, e estava turva como se olhada através de um nevoeiro.
“ANNA!”
Eu tentei gritar através do pedaço de trapo sujo. Eu a vi, lágrimas deslizando pelo seu quase perfeito rosto, implorando para o que parecia ser um General para que nos deixasse ir. Quando ele balança a cabeça Anna começa a gritar de angústia, pedindo e implorando para que fossemos libertados.
De repente, o General se vira e a golpeia com força no rosto, deixando uma grande marca vermelha. Eu sinto a raiva e fúria fervendo dentro de mim até me encontrar desejando com todas as minhas forças que pudesse ferir o homem horrível tanto quanto possível. Eu olho para ele, desejando e ansiando. De repente, ele derruba Alec e começa a se debater, se agitando e balançando para frente e para trás de forma incontrolável, como se estivesse em transe, um olhar de dor e medo descrito em seu rosto. O que está acontecendo? Aos poucos, ele começa a se acalmar, depois de respirar profundamente, ele desmaia.
Eu ofeguei em voz alta, minha concentração se acabando. Naquele momento, o estrangeiro de olhos dourados relaxou, seus músculos ainda levemente se contorcendo. No entanto, após poucos segundos ele estava de pé novamente, olhando pra mim com espanto.
“Ela fez isso?” Seus olhos desviaram para Aro, sua face tranqüila estava composta e por um momento eu quase pensei ter visto um sorriso. Olhei pra ele, a raiva ainda pulsando dentro de mim. Seu sorriso se foi, seus lábios finos de transformando em uma esquelética linha branca.
“Sim” Aro meditou.
Pisquei. Eu tinha?
“Então irmãos, ” Aro continuou, se virando para encarar os outros dois homens “Qual é o veredito de vocês agora?”
O homem de cabelos pretos como um zumbi piscou para Aro.
“Eu duvido que nossa opinião vai realmente afetar o assunto como um todo. ”
Olhei pra ele vagamente. Oferta?
“Pois temo que você se não a considerou” sua voz estava de repente calma e ameaçadora “Então você não terá mais nenhum uso pra nós. ”
Então percebi.
“O que seu ‘guarda’ faz? Eu perguntei, suspeitando automaticamente.
“Bem, eu acho que agora você sabe o que nós” ele parou, procurando pela palavra certa, “somos. Sim, o que nós fazemos”.
Sim, certamente eu sabia disso. Eu lancei um olhar sombrio para Alec que estava parado silenciosamnente em um canto. Eu acenei e ele continuou.
“Veja você, eles tem que ser mantidos em ordem, os outros eu quero dizer. ”
“Há outros?”
Ele pareceu momentaneamente pego pela minha pergunta e inclinou a cabeça, franzindo o rosto.
“É claro. ”
“Oh” Eu absorvi a informação. “e por ‘manter em ordem’ você quer dizer. . . ” Eu gesticulei para que ele continuasse.
“Bem, obviamente os humanos não podem saber sobre nós, e bem, ocasionalmente eles tem que ser lembrados sobre isso.”
A maneira como ele disse ‘lembrados’ me fez pensar que isso poderia se aplicar a mim. Engoli em seco, pensando em minha caça e de repente eu sabia que tinha de aceitar fazer parte, ou eu não existiria mais.
“Ok.” Eu disse, relutante. Ouvi um suspiro de alívio e olhei para Alec, que parecia estar prestes a chorar de alívio.
Aro sorriu.
“Então minha criança”, disse ele, abrindo seus finos braços para abraçar-me, “Seja bem vinda.”
Como Eu Me Tornei… – Capítulo 12
12. Começo
Em todo lugar onde via alegria eu sentia a necessidade de destruí-la, furiosa que aquelas pessoas podiam aproveitar enquanto eu não o podia.
Foi assim que eu me tornei.

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